Quero votar!
por Mariana Mortari
A cidade era uma qualquer. Miolo esquecido de um estado que talvez mal constasse no mapa.
A mulher mal acabara de entrar no carro e já ouvia o celular tocar dentro da bolsa. Praguejou. Olhou em volta, não pensando em possível desculpa para ignorar o toque irritante. Resolveu apenas atender.
- Alô.
- Filha?
- Bom dia, mãe.
- Está ocupada?
- Indo votar.
- Eu quero votar.
A mulher respirou fundo. Todo ano de eleição, a mesma história. Em um país onde muitos desejariam não ter que votar vez alguma, ela não entendia a necessidade da mãe, no auge de seus 80 anos, de votar.
- A senhora não precisa, mãe. Já passou da idade.
- Eu quero votar.
- Mas, mãe, a senhora vota na puta que pariu!
- Mas, eu quero votar.
- Não, mãe. Fica em casa.
- Tsc... Que absurdo. Negando favor à própria mãe.
- Mãe, não começa.
- Não, tudo bem. Não precisa se incomodar. Eu vou de ônibus.
- É outra cidade, mãe, o ônibus não passa lá.
- Vou andando.
- Pra Uru? Deixa disso.
- Eu quero votar!
Respirou fundo. Sabia que a discussão com a mãe não acabaria tão fácil e resolveu ceder, analisando as rugas pelo retrovisor, pensando quantas não eram fruto de conversas com a mãe.
- Tá bom. Eu te levo. Só preciso votar e já passo aí.
E foram-se as horas de viagem, o dia aparentemente perdido, a história sobre a “vadia da vizinha”, que bateu boca com o marido no meio da rua na noite anterior.
- Mãe, por que você quer tanto votar?
- Porque é meu direito de cidadã. Porque preciso exercer o meu direito de ajudar o país a escolher um bom governante. Sabe, filha, o moço na tevê falou isso. Concordei em tudo. Sou cidadã. Quero ajudar. Quero votar.
- Certo.
Estacionou o carro enquanto esperava a mãe voltar da urna, acendendo um cigarro e batendo as cinzas pela janela do carro de forma impaciente. Minutos depois e lá estava a mãe de volta.
- Pronto.
- Votou, é?
- Votei.
- Posso saber em quem?
- Em nenhum. Anulei.














